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Uber, WhatsApp, Netflix, AirBnb… A nova economia venceu?

Você já deve ter ouvido falar de um negócio chamado Uber, que é tipo um aplicativo de táxi, mas não exatamente, é melhor que o táxi. O carro é mais bonito e confortável (e preto), o motorista é mais educado, sempre usa o Waze pra saber o caminho e oferece água gelada, talvez balas e docinhos, talvez até internet Wi-Fi, revistas e TV, e cobra quase o mesmo preço do táxi pra te levar no aeroporto ou para uma saída à noite. E esse tal de Uber, é claro, tem deixado os taxistas furiosos. Eles alegam que os motoristas do Uber não estão sujeitos à mesma regulamentação e aos mesmos encargos que os taxistas devem cumprir, inclusive o alvará de autorização, que é raro (e caro). Os taxistas estão protestando no mundo inteiro, em alguns casos violentamente, contra o Uber. Após muita polêmica em cidades como Paris e Nova York, a briga chegou às principais capitais brasileiras, com protestos dos taxistas em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, alguns casos de violência e ameaças contra os motoristas e passageiros do Uber e a criação de leis para regular ou, na maioria dos caos, proibir o funcionamento do aplicativo. Aqui você encontra um bom resumo e referências sobre o caso.

Nas últimas semanas, com a briga Táxi X Uber ainda quente, outras notícias chamaram a atenção. O presidente da Vivo, maior operadora de telefonia móvel, fixa, internet banda larga e TV a cabo do Brasil, Amos Genish, afirmou que o WhatsApp, aplicativo de troca de mensagens instantâneas, de texto e voz, além de envio de arquivos de fotos, áudio e vídeo e agora também ligações de voz, “é pirataria pura”. Ao contrário de outras operadoras, como Claro e Tim, a Vivo se recusa a fazer parceria com o WhatsApp para que os dados das mensagens trocadas pelo aplicativo não sejam descontados da franquia de dados do cliente. Você provavelmente têm usado menos as ligações convencionais do seu celular, e com certeza muito menos as mensagens SMS convencionais da operadora após descobrir o WhatsApp, certo? Além de ser de graça, o WhatsApp é fácil de usar, a interface é amigável, ou seja, ele funciona, com eficiência, o que muitas vezes não ocorre com os serviços da sua operadora. O Ministro das Comunicações Ricardo Berzoini manifestou ser favorável à criação de leis para regular serviços como o WhatsApp e que, da forma como atuam agora, eles “não geram empregos” no Brasil.

Também na última semana, foi revelado que, com mais de R$ 2,5 milhões de assinantes no Brasil, a Netflix vai faturar mais de R$ 500 milhões por aqui em 2015. Isso é mais que o faturamento das TVs abertas Band e RedeTV!, quarta e quinta maiores redes abertas brasileiras. Claro que as emissoras e, principalmente, as operadoras de TV a cabo, já estão em alerta e começam a mexer seus pauzinhos contra o que consideram concorrência desleal, já que a Netflix tem uma carga tributária bem menor e um ambiente de regulamentação bem diferente das operadoras tradicionais. O mercado de TV a cabo no Brasil cresceu muito na última década mas já mostra sinais de estagnação, enquanto a audiência da TV aberta, principalmente da eterna líder Globo, tem caído consistentemente nos últimos anos. Nos EUA, as empresas de TV a cabo já estão sofrendo com o “cable cutting”, consumidores que cancelam seus planos de cabo pra ficar só com o Netflix e outros serviços de streaming.

Não é difícil perceber o que essas brigas e outras, como a das redes hoteleiras contra o AirBnB, que disponibiliza hospedagem em quartos ou apartamentos de pessoas interessadas em ganhar uma renda extra, têm em comum. São indústrias estabelecidas e com todo o aparato de regulamentação e tributação estatal, temendo perder seu mercado para novos players, que se aproveitam do avanço tecnológico para oferecer serviços mais eficientes e muitas vezes mais baratos. O fato desses novos nomes não precisarem, pelo menos a princípio, se adequarem às regras que os antigos seguem, ajuda a tornar as reclamações compreensíveis, mesmo sabendo que empresas de táxi, telefonia, TV a cabo, costumam ter muitos problemas nos serviços que prestam. É o dilema da inovação bem claro. A inovação costuma ser ótima para o consumidor, mas geralmente traz como efeitos colaterais o desaparecimento de empresas e o consequente desemprego. Sim, um motorista de táxi pode virar um Uber Driver, mas sabia que os planos da Uber para o futuro preveem que sua frota seja totalmente de veículos autônomos, dirigidos automaticamente? E aí, o que fazer com essa imensa massa de trabalhadores, que de repente se tornam “inúteis”?

Palavras novas costumam surgir com as inovações tecnológicas e elas parecem estar aparecendo cada vez mais rápido. Além das já conhecidas startups, da chamada “economia colaborativa”, ou sharing economy (que não se aplica tão bem ao Uber, mas isso é outro papo), surgiu com tudo recentemente o termo “disrupção”, que pretende definir o que uma inovação faz com um setor da economia se for suficientemente inovadora: transforma radicalmente o mercado. Foi o que aconteceu primeiro com a indústria fonográfica, que mudou totalmente após a chegada do compartilhamento de arquivos de música gratuitamente (e ilegalmente) em MP3. Um novo livro, Como a Música Ficou Grátis, de Stephen Witt, conta como esse processo aconteceu, e vale a leitura. Confira uma entrevista do jornalista Alexandre Matias com o autor. Jornais e revistas impressos, livrarias físicas (e depois todo o comércio de lojas físicas) seguiram o caminho da obsolescência com o surgimento da mídia digital e do e-commerce.

Há muitos setores ainda para serem “disrupted”. Pense nos correios, no sistema de transporte coletivo, na aviação, no sistema de saúde, educação e, no limite, o próprio sistema político atual, que todos vemos o quanto, nos moldes atuais, está longe de ser realmente representativo dos interesses da população, e por fim o sistema bancário e financeiro. Muitos dizem que o dia de todas essas indústrias vai chegar, e pode ser antes do que a gente imagina. No Brasil, o protecionismo e corporativismo peculiares do nosso sistema devem atrasar um pouco a disrupção, como mostra esse texto de Leonardo Rossatto Queiroz, mas ela parece ser irreversível.

Mas claro, não é só a não adequação às normas regulatórias e tributárias que explica o sucesso de Uber, NetFlix, WhatsApp ou AirBnB. Eles conseguem ser tão eficientes porque atuam de forma radicalmente diferente das empresas tradicionais, inclusive e principalmente em sua gestão. Talvez o aspecto mais impressionante da revolução digital foi a “desmaterialização” da economia. Em vez de negociar átomos, ou seja, coisas físicas, que ocupam espaço, possuem peso, são palpáveis, passou-se a negociar bits, informação digital que não ocupa espaço e, portanto, não custa nada para ser produzida (e reproduzida). Um jornal impresso em papel, um CD, um DVD, um livro, ocupam espaço e usam recursos naturais, energia, trabalho intensivo, para serem produzidos. Tudo isso em sua versão digital pode ser copiado instantaneamente e infinitamente. Com serviços “sob demanda”, como o AirBnB e o Uber,essa desmaterialização ultrapassou as fronteiras digitais e chegou ao mundo “real”. As empresas não possuem os imóveis e automóveis usados para prestar seu serviço. É tudo “terceirizado”. Uma equipe enxuta de trabalhadores altamente qualificados programam o software, os algoritmos, o design simples e atraente do aplicativo, e uma rede descentralizada de autônomos, com seus próprios bens, fazem o trabalho em si de dirigir seus carros e administrar o aluguel de suas casas. O Netflix nasceu como uma locadora online que entregava filmes em DVD nas casas dos usuários, mas logo viu que seria muito mais vantajoso transmitindo os filmes e séries por streaming. Segundo Tim O’Reily, um dos grandes gurus da chamada “nova economia”, isso trará uma transformação pra própria noção de gestão de empresas. Ele não acha que a nova economia irá eliminar empregos em grande escala, mas o tipo de trabalho disponível vai mudar muito, e rápido. De um modelo de grande corporação com um grande patrimônio físico e quadro de funcionários, haverá a transição para empresas pequenas, praticamente sem “patrimônio” como o entendemos hoje (ativos imobiliários, máquinas, veículos, força de trabalho interna), em que o “trabalho pesado”  é feito por software e algoritmos e uma grande rede descentralizada de colaboradores independentes realiza o serviço ao cliente em si, pagando uma taxa à plataforma. Nisso, não só esse trabalho na atividade-fim da empresa se transforma, a exemplo do motorista do Uber. O papel dos gestores, dos administradores da empresa, também muda radicalmente.

Entre esses algoritmos e sistemas automatizados, um dos mais interessantes é o de “reputação”. Quando você chama um Uber, por exemplo, tem que dar uma nota para o motorista. O sistema do Uber ranqueia os motoristas de acordo com a avaliação dos usuários, garantindo com grande eficácia que os melhores motoristas se destaquem, e os que prestam um serviço abaixo do padrão sejam descadastrados da plataforma. Esse sistema de pontuação não é perfeito, mas já parece claro que é superior aos sistemas de regulação tradicionais, como por exemplo a Anatel, agência que regula o setor de telefonia. Imaginem esse sistema aplicado a tantos outros serviços de baixa qualidade que precisamos usar por falta de opção, inclusive os serviços públicos?

Pois é, ainda há muito a ser discutido sobre os impactos dessa nova economia, mas podemos ter certeza que ela veio para ficar e o que estamos vendo é só o começo. Vem muito mais transformação e disrupção por aí. Podemos querer reagir contra tentando proteger nosso emprego como ele é hoje, mas as chances de perder essa briga são bem altas. Talvez o mais inteligente seja tentar se adaptar, aproveitar o que o novo traz de bom, tentando minimizar os problemas que ele também inevitavelmente trará. É um admirável mundo novo, e estamos ansiosos para ver o que mais vem por aí!