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Raul Seixas e seus fãs anteciparam as redes sociais

Está em cartaz nos cinemas o documentário Raul Seixas: O Início, o Fim e o Meio, que cumpre a difícil tarefa de contar a história de vida ímpar deste que foi um dos maiores artistas populares do Brasil. O filme foi bem recebido pela crítica e pelo público pela maneira franca como aborda os problemas e o talento do “Maluco Beleza”. Através de entrevistas com familiares, amigos e parceiros musicais de Raul, entre eles Paulo Coelho, o diretor Walter Carvalho tenta descobrir o verdadeiro Raul Seixas, além dos mitos.

Mas vocês devem estar se perguntando o que Raul e seus fãs tem a ver com as redes sociais, né? Bem, claro que esta afirmação do título é uma brincadeira, mas ela não está longe da verdade! No início da década de 1970, durante o auge do regime militar no Brasil, Raulzito estava no ápice da carreira, desafiando a censura com suas letras iconoclastas. Foi quando desenvolveu com Paulo Coelho sua teoria da “Sociedade Alternativa”, uma utopia libertária em compasso com a contracultura da época, com o mantra “faça o que tu queres, pois é tudo da lei!”.

Muito da cibercultura e do aspecto aberto e horizontal da internet se deve a este espírito libertário da contracultura. O livro From Counterculture to Cyberculture , de Fred Turner, professor de Comunicação da Universidade de Stanford, traça uma linha direta entre idealistas hippies que criaram o Whole Earth Catalog, espécie de ancestral em papel xerocado da internet, e a cultura digital que vemos hoje em dia. Estes hippies se apropriaram dos computadores e sistemas de comunicação criados pelos militares americanos na Guerra Fria para fazer valer a utopia de uma aldeia global conectada e colaborativa, onde todos pudessem produzir conteúdo e participar da sociedade com a mesma igualdade de condições.

Além dessa conexão simbólica, Raul Seixas, e principalmente seus fãs, exerceram na prática este senso de comunidade e troca colaborativa de conteúdo, pelo menos desde o começo da década de 80. Os fã-clubes do Maluco Beleza, principalmente o maior deles, Raul Rock Club, criado em 1981 por Sylvio Passos, gravam, garimpam e disseminam qualquer tipo de material sobre Raulzito, em fitas cassete, fanzines, CD-Rs e agora pela internet, criando ao mesmo tempo redes de relacionamento entre fãs de Raul espalhados pelo Brasil e o mundo.

Se seu corpo frágil não tivesse sucumbido aos excessos em 1989, talvez estaríamos vendo hoje o já senhor Raul Seixas soltando sua metralhadora giratória de poesia, sarcasmo e iconoclastia no seu blog, no Twitter, no Facebook, no YouTube… Há vários fakes, claro, inclusive um “oficial” @raulseixas, mantido pelo Raul Rock Club. E devido à imensa popularidade de Raulzito, gente de todas as classes sociais e de todos os lugares seguem trocando material e espalhando a filosofia libertária dele pela internet e por todos os tipos de mídias. Toca Raul!