absoluto

Uber, WhatsApp, Netflix, AirBnb… A nova economia venceu?

Você já deve ter ouvido falar de um negócio chamado Uber, que é tipo um aplicativo de táxi, mas não exatamente, é melhor que o táxi. O carro é mais bonito e confortável (e preto), o motorista é mais educado, sempre usa o Waze pra saber o caminho e oferece água gelada, talvez balas e docinhos, talvez até internet Wi-Fi, revistas e TV, e cobra quase o mesmo preço do táxi pra te levar no aeroporto ou para uma saída à noite. E esse tal de Uber, é claro, tem deixado os taxistas furiosos. Eles alegam que os motoristas do Uber não estão sujeitos à mesma regulamentação e aos mesmos encargos que os taxistas devem cumprir, inclusive o alvará de autorização, que é raro (e caro). Os taxistas estão protestando no mundo inteiro, em alguns casos violentamente, contra o Uber. Após muita polêmica em cidades como Paris e Nova York, a briga chegou às principais capitais brasileiras, com protestos dos taxistas em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, alguns casos de violência e ameaças contra os motoristas e passageiros do Uber e a criação de leis para regular ou, na maioria dos caos, proibir o funcionamento do aplicativo. Aqui você encontra um bom resumo e referências sobre o caso.

Nas últimas semanas, com a briga Táxi X Uber ainda quente, outras notícias chamaram a atenção. O presidente da Vivo, maior operadora de telefonia móvel, fixa, internet banda larga e TV a cabo do Brasil, Amos Genish, afirmou que o WhatsApp, aplicativo de troca de mensagens instantâneas, de texto e voz, além de envio de arquivos de fotos, áudio e vídeo e agora também ligações de voz, “é pirataria pura”. Ao contrário de outras operadoras, como Claro e Tim, a Vivo se recusa a fazer parceria com o WhatsApp para que os dados das mensagens trocadas pelo aplicativo não sejam descontados da franquia de dados do cliente. Você provavelmente têm usado menos as ligações convencionais do seu celular, e com certeza muito menos as mensagens SMS convencionais da operadora após descobrir o WhatsApp, certo? Além de ser de graça, o WhatsApp é fácil de usar, a interface é amigável, ou seja, ele funciona, com eficiência, o que muitas vezes não ocorre com os serviços da sua operadora. O Ministro das Comunicações Ricardo Berzoini manifestou ser favorável à criação de leis para regular serviços como o WhatsApp e que, da forma como atuam agora, eles “não geram empregos” no Brasil.

Também na última semana, foi revelado que, com mais de R$ 2,5 milhões de assinantes no Brasil, a Netflix vai faturar mais de R$ 500 milhões por aqui em 2015. Isso é mais que o faturamento das TVs abertas Band e RedeTV!, quarta e quinta maiores redes abertas brasileiras. Claro que as emissoras e, principalmente, as operadoras de TV a cabo, já estão em alerta e começam a mexer seus pauzinhos contra o que consideram concorrência desleal, já que a Netflix tem uma carga tributária bem menor e um ambiente de regulamentação bem diferente das operadoras tradicionais. O mercado de TV a cabo no Brasil cresceu muito na última década mas já mostra sinais de estagnação, enquanto a audiência da TV aberta, principalmente da eterna líder Globo, tem caído consistentemente nos últimos anos. Nos EUA, as empresas de TV a cabo já estão sofrendo com o “cable cutting”, consumidores que cancelam seus planos de cabo pra ficar só com o Netflix e outros serviços de streaming.

Não é difícil perceber o que essas brigas e outras, como a das redes hoteleiras contra o AirBnB, que disponibiliza hospedagem em quartos ou apartamentos de pessoas interessadas em ganhar uma renda extra, têm em comum. São indústrias estabelecidas e com todo o aparato de regulamentação e tributação estatal, temendo perder seu mercado para novos players, que se aproveitam do avanço tecnológico para oferecer serviços mais eficientes e muitas vezes mais baratos. O fato desses novos nomes não precisarem, pelo menos a princípio, se adequarem às regras que os antigos seguem, ajuda a tornar as reclamações compreensíveis, mesmo sabendo que empresas de táxi, telefonia, TV a cabo, costumam ter muitos problemas nos serviços que prestam. É o dilema da inovação bem claro. A inovação costuma ser ótima para o consumidor, mas geralmente traz como efeitos colaterais o desaparecimento de empresas e o consequente desemprego. Sim, um motorista de táxi pode virar um Uber Driver, mas sabia que os planos da Uber para o futuro preveem que sua frota seja totalmente de veículos autônomos, dirigidos automaticamente? E aí, o que fazer com essa imensa massa de trabalhadores, que de repente se tornam “inúteis”?

Palavras novas costumam surgir com as inovações tecnológicas e elas parecem estar aparecendo cada vez mais rápido. Além das já conhecidas startups, da chamada “economia colaborativa”, ou sharing economy (que não se aplica tão bem ao Uber, mas isso é outro papo), surgiu com tudo recentemente o termo “disrupção”, que pretende definir o que uma inovação faz com um setor da economia se for suficientemente inovadora: transforma radicalmente o mercado. Foi o que aconteceu primeiro com a indústria fonográfica, que mudou totalmente após a chegada do compartilhamento de arquivos de música gratuitamente (e ilegalmente) em MP3. Um novo livro, Como a Música Ficou Grátis, de Stephen Witt, conta como esse processo aconteceu, e vale a leitura. Confira uma entrevista do jornalista Alexandre Matias com o autor. Jornais e revistas impressos, livrarias físicas (e depois todo o comércio de lojas físicas) seguiram o caminho da obsolescência com o surgimento da mídia digital e do e-commerce.

Há muitos setores ainda para serem “disrupted”. Pense nos correios, no sistema de transporte coletivo, na aviação, no sistema de saúde, educação e, no limite, o próprio sistema político atual, que todos vemos o quanto, nos moldes atuais, está longe de ser realmente representativo dos interesses da população, e por fim o sistema bancário e financeiro. Muitos dizem que o dia de todas essas indústrias vai chegar, e pode ser antes do que a gente imagina. No Brasil, o protecionismo e corporativismo peculiares do nosso sistema devem atrasar um pouco a disrupção, como mostra esse texto de Leonardo Rossatto Queiroz, mas ela parece ser irreversível.

Mas claro, não é só a não adequação às normas regulatórias e tributárias que explica o sucesso de Uber, NetFlix, WhatsApp ou AirBnB. Eles conseguem ser tão eficientes porque atuam de forma radicalmente diferente das empresas tradicionais, inclusive e principalmente em sua gestão. Talvez o aspecto mais impressionante da revolução digital foi a “desmaterialização” da economia. Em vez de negociar átomos, ou seja, coisas físicas, que ocupam espaço, possuem peso, são palpáveis, passou-se a negociar bits, informação digital que não ocupa espaço e, portanto, não custa nada para ser produzida (e reproduzida). Um jornal impresso em papel, um CD, um DVD, um livro, ocupam espaço e usam recursos naturais, energia, trabalho intensivo, para serem produzidos. Tudo isso em sua versão digital pode ser copiado instantaneamente e infinitamente. Com serviços “sob demanda”, como o AirBnB e o Uber,essa desmaterialização ultrapassou as fronteiras digitais e chegou ao mundo “real”. As empresas não possuem os imóveis e automóveis usados para prestar seu serviço. É tudo “terceirizado”. Uma equipe enxuta de trabalhadores altamente qualificados programam o software, os algoritmos, o design simples e atraente do aplicativo, e uma rede descentralizada de autônomos, com seus próprios bens, fazem o trabalho em si de dirigir seus carros e administrar o aluguel de suas casas. O Netflix nasceu como uma locadora online que entregava filmes em DVD nas casas dos usuários, mas logo viu que seria muito mais vantajoso transmitindo os filmes e séries por streaming. Segundo Tim O’Reily, um dos grandes gurus da chamada “nova economia”, isso trará uma transformação pra própria noção de gestão de empresas. Ele não acha que a nova economia irá eliminar empregos em grande escala, mas o tipo de trabalho disponível vai mudar muito, e rápido. De um modelo de grande corporação com um grande patrimônio físico e quadro de funcionários, haverá a transição para empresas pequenas, praticamente sem “patrimônio” como o entendemos hoje (ativos imobiliários, máquinas, veículos, força de trabalho interna), em que o “trabalho pesado”  é feito por software e algoritmos e uma grande rede descentralizada de colaboradores independentes realiza o serviço ao cliente em si, pagando uma taxa à plataforma. Nisso, não só esse trabalho na atividade-fim da empresa se transforma, a exemplo do motorista do Uber. O papel dos gestores, dos administradores da empresa, também muda radicalmente.

Entre esses algoritmos e sistemas automatizados, um dos mais interessantes é o de “reputação”. Quando você chama um Uber, por exemplo, tem que dar uma nota para o motorista. O sistema do Uber ranqueia os motoristas de acordo com a avaliação dos usuários, garantindo com grande eficácia que os melhores motoristas se destaquem, e os que prestam um serviço abaixo do padrão sejam descadastrados da plataforma. Esse sistema de pontuação não é perfeito, mas já parece claro que é superior aos sistemas de regulação tradicionais, como por exemplo a Anatel, agência que regula o setor de telefonia. Imaginem esse sistema aplicado a tantos outros serviços de baixa qualidade que precisamos usar por falta de opção, inclusive os serviços públicos?

Pois é, ainda há muito a ser discutido sobre os impactos dessa nova economia, mas podemos ter certeza que ela veio para ficar e o que estamos vendo é só o começo. Vem muito mais transformação e disrupção por aí. Podemos querer reagir contra tentando proteger nosso emprego como ele é hoje, mas as chances de perder essa briga são bem altas. Talvez o mais inteligente seja tentar se adaptar, aproveitar o que o novo traz de bom, tentando minimizar os problemas que ele também inevitavelmente trará. É um admirável mundo novo, e estamos ansiosos para ver o que mais vem por aí!

Aprovação do casamento igualitário nos EUA também é histórico para o mundo da comunicação

Na última sexta-feira (26/06), o mundo, online e off-line, ficou mais colorido. As cores do arco-íris, símbolo do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros), tremularam nas ruas das principais cidades americanas após a Suprema Corte dos Estados Unidos determinar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é um direito garantido pela Constituição dos EUA, o que na prática legalizou o casamento de pessoas do mesmo sexo em todos os 51 estados da federação. Até então, 14 estados impediam o casamento igualitário. Momentos depois da notícia se espalhar, a hashtag #LoveWins (algo como “O Amor Venceu”) se espalhou pelas redes sociais e começaram a pipocar no Facebook as fotos de perfil com um filtro que adicionava uma camada translúcida com as cores do arco-íris sobre os rostos e avatares.

Há muitas formas de analisar o que aconteceu nesta sexta-feira histórica. O crescimento constante da aprovação do casamento igualitário entre a opinião pública norte-americana reflete mudanças demográficas, sociais e culturais importantes na maior economia do mundo. Essa mudança cultural permitiu, por exemplo, a inclusão de um casal de gays “normais”, que formavam o que parecia ser a família mais ajustada entre os personagens da bem-sucedida sitcom Modern Family, que começou a ser exibida em 2009. Em 2013, o primeiro atleta gay assumido a “sair do armário” na NFL, a milionária liga de futebol americano, Michael Sam, evidenciou as mudanças também no conservador mundo do esporte profissional no país.

Para nós que trabalhamos com as redes sociais e o marketing digital, as lições a se tirar da “onda arco-íris” também são muitas. A começar pelo “timing” perfeitamente orquestrado do anúncio da Suprema Corte. A sexta-feira marcaria o início do “Pride Weekend”, o fim de semana do Orgulho Gay nos EUA e em vários outros países, que homenageia a chamada “Revolta de Stonewall”, em 1969, quando gays que frequentavam o bar Stonewall, na região do Greenwich Village, em Nova York, se revoltaram contra o constante assédio da polícia com grandes protestos que são considerados o marco zero do movimento LGBT.

Ainda de manhã, a imprensa e alguns manifestantes se reuniam em frente ao prédio da Suprema Corte, pois rumores diziam que naquele dia sairia a decisão. Com a confirmação de que o assunto estaria na pauta do dia, foi chegando cada vez mais gente. O interior da Corte é um dos raros espaços atuais completamente “media-free”. Câmeras fotográficas e de vídeo, gravadores, celulares, tablets e notebooks são proibidos. Alguns dos principais ativistas pró e contra o casamento gay foram convidados a entrar e ouvir ao vivo o anúncio, assim como alguns estagiários dos principais órgãos de imprensa, que iriam receber a decisão impressa para ser divulgada. Isso criou uma cena curiosa. Assim que receberam os papéis, os estagiários cruzaram correndo o pátio da Corte para entregar a notícia o mais rápido possível aos seus superiores munidos de todos os aparelhos digitais que distribuiriam a notícia ao mundo. Logo vídeos da cena estavam no Vine. Ao mesmo tempo, uma versão em PDF da sentença era publicada no site da Suprema Corte. A linguagem quase poética da opinião vencedora, após uma votação dividida, 5 votos a 4, redigida pelo juiz Anthony Kennedy, centrada na irracionalidade de não se permitir a manifestação do amor entre duas pessoas ser reconhecida pelo estado com todas as garantias legais, chamou a atenção de quem se aventurou a ler o documento de 103 páginas. Os repórteres tiveram que trabalhar rápido para destacar os principais trechos do texto em suas primeiras matérias que iriam ao ar nos canais de internet dos maiores veículos de mídia do mundo.

Em contraste com esse “decoro analógico” exigido pelo colegiado de juízes que decide o que é ou não constitucional nos EUA, o mundo digital explodiu assim que as primeiras notícias se espalhavam pela rede. Em poucos minutos, o presidente Barack Obama tuitou: “Hoje é um grande passo em nossa marcha rumo à igualdade. Casais de gays e lésbicas agora possuem o direito a se casarem, assim como todos os outros. #LoveWins”. Desde então foram quase 460 mil retweets, e a hashtag #LoveWins em questão de minutos alcançou o topo dos Trending Topics, com o auxílio de incontáveis celebridades e perfis com um alto número de seguidores que tuitaram e retuitaram. Em pouco tempo, o Twitter adicionou uma figurinha de arco-íris a todos os tuítes com a hastag #LoveWins. Em seis horas, foram mais de 6,2 milhões de tuitadas com a hashtag espalhada a partir do perfil de Obama, que tem quase 3 milhões de seguidores na rede social. Também em questão de horas, os logos de várias das maiores marcas do mundo ganharam uma versão com arco-íris em seus avatares para celebrar a decisão, assim como a Casa Branca e outros órgãos governamentais nos EUA e em todo o mundo. Não só empresas da “nova economia”, como Google, YouTube e o próprio Twitter, mas marcas mais tradicionais como Visa, Mastercard, American Airlines e Macy’s, coloriram seus avatares. Já o Google adicionou figuras de pessoas dando as mãos e um coraçãozinho nas cores do arco-íris aos resultados de buscas relacionados a termos como “casamento gay” e “casamento de pessoas do mesmo sexo”. O YouTube fez ainda um vídeo de “coletânea” de vídeos de usuários que “saíram do armário”, que ficou emocionante. Confira:

Então veio o Facebook. No início do mês, a empresa de Mark Zuckerberg lançou silenciosamente um aplicativo simples que adicionava um filtro de arco-íris à foto de perfil dos usuários. A novidade foi criada por dois estagiários, durante uma “hackatona” da empresa, com a ideia de celebrar a semana do orgulho gay que, coincidentemente, seria a última de junho, e testada internamente antes de ser aberta ao público. Quando Mark Zuckerberg mudou sua própria foto de perfil após anunciar seu apoio e do Facebook para a causa LGBT, lembrando que a empresa possui diversas políticas de apoio a essa e outras causas, as fotinhos com arco-íris começaram a se espalhar. Primeiro entre a comunidade LGBT e apoiadores da causa, mas o mais interessante foi que logo pessoas não necessariamente gays ou ligadas à causa, que talvez nunca tivessem pensado muito no assunto, também aderiram e mostraram com esse gesto simples o apoio à garantia de direitos sobre todas as formas de amar. Segundo informações que o Facebook passou para o Mashable, mais de 26 milhões de usuários mudaram suas fotos, e receberam mais de meio bilhão de likes e comentários. Entre os que mudaram seus avatares estavam novamente muitas celebridades, entre elas algumas nada ligadas ao movimento LGBT, como o ator e ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger, que respondeu “hasta la vista baby” a um comentário de um fã que disse que iria dar “unlike” na página (e recebeu mais uma chuva de likes).

Claro que, com o Facebook sendo o Facebook, alguns desconfiaram que a rede irá utilizar os dados de quem mudou sua foto para rastrear e montar um banco de dados de quem apoia a causa LGBT para, por exemplo, oferecer aos seus anunciantes a possibilidade de vender anúncios focados neste público. Outros imaginaram que a ação seja mais um “experimento” da empresa com seus algoritmos, como a recente e polêmica experiência de como o conteúdo que o usuário vê em seu feed altera seu humor.

A repercussão e adesão à “onda colorida” no Brasil, teoricamente não afetado pela decisão, que só vale em solo americano, foram surpreendentes. Talvez isso possa ser explicado pela recente ascensão de pautas conservadoras no Congresso Nacional, a resistência à inclusão de questões de gênero e sexualidade no Plano Nacional de Educação e o ativismo de personalidades políticas e religiosas abertamente contrárias ao avanço dos direitos para a comunidade LGBT, como o notório pastor Silas Malafaia e os deputados federais Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Alguns questionaram o fato de não termos comemorado tanto quando, em 2011, o STF (Supremo Tribunal Federal) garantiu a constitucionalidade da união civil estável entre pessoas do mesmo sexo e a resolução do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), em 2013, de que cartórios deveriam autorizar o casamento civil entre dois homens ou duas mulheres. As decisões daqui do Brasil e dos EUA são diferentes, como bem explica a advogada Flávia Penido nesse artigo, e o desconhecimento de muitas pessoas sobre essa resolução do CNJ e o esclarecimento que a “onda arco-íris” trouxe para esse assunto no Brasil já validam a atitude de tantos brasileiros em mostrar seu apoio à causa. O impacto simbólico da decisão no país mais poderoso e maior economia do mundo, que de fato costuma moldar comportamentos em todo o mundo, também não deve ser menosprezado.

Embora em muitos casos as discussões na rede social escorregaram para a desgastada briga esquerda X direita, “petralhas X coxinhas” que infelizmente vem dominando o debate público no Brasil, com gente de um lado reclamando de quem muda foto de perfil, mas ignora causas mais importantes como o combate à fome, e outros reclamando da “colonização cultural” em relação aos EUA, prevaleceu justamente o contrário: pessoas de diferentes posições políticas e ideológicas e orientações sexuais se unindo para celebrar juntos algo muito simples e simbólico: a vitória do amor.

Não se deve menosprezar o impacto cultural dessa decisão e da imensa mudança cultural que ela representa, e todos que trabalham com comunicação, marketing, publicidade, relacionamento com o público, devem estar atentos. A mudança na opinião pública sobre esse e outros temas foi tanto impulsionada como refletida por setores como a indústria da moda, das artes e do entretenimento, e o apoio maciço de marcas da nova mídia à causa LGBT não é por acaso. O mundo mudou e, ou mudamos junto com ele, ou passaremos do velho mainstream para as margens. As marcas, e quem as divulga, devem estar sempre atentas e se adaptar a essas mudanças cada vez mais rápidas na opinião pública.

Já para as áreas do jornalismo, comunicação pública e institucional e relações públicas, o extremo cuidado e profissionalismo sobre como a decisão da Suprema Corte foi divulgada para gerar o máximo impacto e realmente colocar o dia 26 de junho de 2015 na história, e o papel essencial das mídias sociais para esse impacto, certamente será estudado como um dos cases mais espetaculares das novas mídias pelos estudantes e profissionais de comunicação do futuro. Entre outras coisas, essa estratégia impecável de comunicação neutralizou a terrível série de más notícias trazidas no mesmo dia por uma onda de atentados na Europa e no Oriente Médio. E na primeira página do New York Times e de todos os outros grandes jornais do mundo (e embora os jornais impressos estejam na berlinda, a capa do Times ainda será, junto com o tuíte de Obama e a foto colorida de Zuckerberg, estampada nos livros de história do futuro), a manchete da boa notícia que celebra o amor estará em destaque, tirando as más notícias que promovem o ódio dos atentados terroristas. Isso não é pouca coisa.

Snapchat está “bombando” entre os millenials e gera oportunidade para marcas

Houve um tempo em que havia o Orkut. Depois veio o Twitter. O Facebook. O Instagram… O WhatsApp… Mas agora, não há rede social mais utilizada pelo público
Snapchat! Se você nunca ouviu falar dele, talvez já tenha passado dos 30… Mas tudo bem, quem conhece já sabe como funciona, mas pra quem não conhece, a gente explica! O Snapchat é um aplicativo para celular que funciona de modo semelhante ao WhatsApp: você se cadastra, cria uma lista de contatos com seus amigos e envia e recebe mensagens multimídia, com muitas fotos e vídeos. Mas tem um detalhe: as mensagens “se autodestroem”, desaparecem do seu celular (e eles garantem que também dos servidores do aplicativo) em no máximo 10 segundos. Esse detalhe faz com que o Snapchat seja muito usado para trocas de mensagens, digamos, mais íntimas.

O Snapchat foi criado em 2011, como um projeto para uma aula da faculdade, por Evan Spiegel, Bobby Murphy e Reggie Brown, alunos da Universidade de Stamford, celeiro de muitas outras startups revolucionárias. O aplicativo tem hoje cerca de 200 milhões de usuários ativos por mês, que trocam mais de um bilhão de fotos e vídeos por dia. Em 2013, eles recusaram uma oferta de US$ 3 bilhões do Facebook para adquirir o aplicativo, que hoje é avaliado em US$ 15 bilhões e acaba de receber uma rodada de investimentos de US$ 650 milhões.

Mas foi só em outubro de 2014 que o Snapchat passou a utilizar a publicidade para gerar renda para o serviço, seguindo os passos de Facebook, YouTube e Twitter. E claro que empresas e marcas estão de olho na possibilidade de anunciar para a base de 200 milhões de usuários do aplicativo. Você deve estar pensando agora: “Será que é uma boa minha empresa anunciar no Snapchat?”

A resposta é: depende. Vale muito a pena se o seu público-alvo for o mesmo que está ligado no Snap. Ou seja, a porção mais jovem da Geração Y, os chamados Millenials, entre 13 e 25 anos. São eles que ficam o dia inteiro mandando selfies e emojis pros amigos no aplicativo.

Mas a verdade é que o Snapchat ainda está tentando encontrar o formato ideal para conteúdo patrocinado. Num primeiro momento, os anúncios eram no formato Brand Stories, que permite criar vídeos de até 100 segundos, que podem incluir montagens de fotos, e ficam 24 horas no ar, a após os primeiros meses, um estudo da consultoria Millward Brown Digital concluiu que a receptividade dos usuários ao anúncio foi boa, acima da média de outras plataformas. Entre as marcas que já fizeram ações de marketing no Snapchat estão Taco Bell, Red Bull e HBO. Mas em março deste ano eles “deram um tempo” no recurso Brand Stories, para focar em outras formas de publicidade, como o patrocínio no recurso Our Stories, que faz montegens com curadoria dos vídeos e fotos dos usuários em grandes eventos, como festivais de música, e do novo recurso Discoveries, que têm conteúdo produzido por grandes veículos de mídia como CNN e ESPN. O que parece é que a empresa está testando várias possibilidades para ver qual é a mais eficaz para monetizar a base de usuários e justificar as estimativas bilionárias de valor do Snapchat.

Além desses recursos “oficiais” para criar conteúdo de marketing no Snapchat, sua marca também pode criar um perfil “pessoal” no aplicativo e passar a seguir e se relacionar diretamente com usuários do Snapchat que queira atingir. O melhor aspecto de anunciar na plataforma é que a imaginação e a criatividade são o limite! Por exemplo, a primeira empresa que ficou conhecida por anunciar no Snapchat foi a 16 Handles, uma rede de lojas de frozen yogurt de Nova York, que enviava um cupom de desconto que se autodestruía em 10 segundos para quem seguia o perfil da iogurteria e postava uma foto provando um de seus frozen yogurts. Claro que você só poderia abrir a mensagem quando estivesse na frente do caixa, senão ela seria destruída.

Além dos cupons de desconto, sua empresa pode criar campanhas de pré-lançamento compartilhando fotos e vídeos de produtos que ainda não estão no mercado, criando buzz e desejo de compra, ou brincadeiras como quizes (envie um snap com uma pergunta, o primeiro que responder corretamente ganha um prêmio) e caça ao tesouro (fotografe um lugar ou objeto e a pessoa tem que fotografar a mesma coisa, assim que enviarem você envia outro de volta, e o primeiro que completar a lista ganha). Uma boa dica é usar seus canais em outras redes, como Twitter e Facebook, para avisar que tem uma nova ação rolando no Snapchat.

Enfim, a recomendação é ficar de olho no que está rolando no Snapchat, acompanhando o blog do aplicativo (http://blog.snapchat.com/) e mantendo uma conta para ver as novidades, e deixar a imaginação fluir para criar campanhas divertidas e criativas para a rede. SE sua empresa tem os millenials mais jovens como público alvo o retorno é certo, até porque ainda é possívei veicular campanhas no Snap sem investimento em mídia. Nós com certeza vamos ficar de olhos bem abertos para essa plataforma!

 

Eleições 2014: Redes sociais se consolidam como arena das campanhas

Ufa, chegamos ao final da mais acirrada e acalorada campanha presidencial da nossa jovem democracia! Há 25 anos, na primeira eleição direta depois da Ditadura Militar, Fernando Collor venceu Luiz Inácio Lula da Silva por pouco mais de 4 milhões de votos, após uma campanha marcada por troca de acusações, debates tensos e suspeitas de manipulação da opinião pública pela grande mídia. E neste domingo,  Dilma Rousseff foi reeleita superando Aécio Neves por cerca de 3,5 milhões de votos, também após uma disputa marcada pela agressividade de ambos os lados, que extravasou os debates e programas políticos e transbordou na internet e nas ruas.

Mas aqui o assunto é internet, e essa eleição provou mais uma vez a importância que a internet, as redes sociais e as novas redes de comunicação instantânea via celular, como o WhatsApp, têm hoje no processo eleitoral. Essas foram as eleições mais caras da história, com um total de cerca de R$ 73 bilhões gastos pelos partidos, coligações e candidatos de todos os cargos em todo o Brasil.  Para se ter uma ideia, isso equivale a três Copas do Mundo e, como sabemos, as campanhas são financiadas principalmente por grandes empresas, que contribuem com todos que tem chance de vitória, independente da ideologia. Dilma e Aécio tiveram basicamente os mesmos financiadores, grandes empreiteiras e empresas do setor agropecuário e industrial. O “grosso” do dinheiro vai para pagar a propaganda eleitoral gratuita na TV, que atingiu grande grau de profissionalismo e é sim decisiva, mas estimativas mostram que as duas campanhas que disputaram o segundo turno para presidente gastaram pelo menos R$ 40 milhões com a “militância virtual” nas redes sociais.

É só abrir o Facebook para constatar o quanto as eleições monopolizaram as conversas na maior rede social. Segundo o site Olhar Digital, o assunto eleições bateu o recorde no Facebook brasileiro, com 674 milhões de interações durante toda a campanha. E o clima de polarização entre o PT e o PSDB fez aflorar comportamentos bem “antissociais” nas redes sociais. Com certeza você deve ter bloqueado ou ocultado mais de um amigo que compartilha posições políticas diferentes da sua, e isso é uma pena, pois a democracia pressupõe o respeito às opiniões divergentes e quando a gente conversa só com quem concordamos o debate empobrece. Pior ainda foram as manifestações de discurso de ódio, racismo e xenofobia e a disseminação de peças de desinformação feitas para confundir o eleitor, coisas que ultrapassam o debate político e caem na esfera criminal.

A facilidade e velocidade com que informações falsas circulam pelas redes sociais merece toda a nossa atenção e mostra como ainda é importante o bom e velho jornalismo feito com profissionalismo e atenção à apuração e checagem rigorosa dos fatos. Pena que a própria imprensa brasileira às vezes não dê atenção a isso quando uma denúncia pode prejudicar o candidato com quem os donos do veículo não simpatizam (mas este é outro assunto…) Em relação ao marketing político nas redes sociais, há alguns pontos interessantes que devem ser destacados e analisados.

Em primeiro lugar, o próprio marketing político foi bastante questionado nessas eleições. Muitos criticaram o fato dos candidatos, nos programas de debates, se limitarem a reproduzir, como bonecos de ventríloquo, os discursos preparados meticulosamente pelos marqueteiros, repetindo os mesmos números e mensagens-chave. Nos debates, isso gerou muita irritação entre os eleitores. Nas propagandas, geraram comentários do tipo “eu gostaria de viver no país mostrado na TV”. Isso acende um alerta. O marketing político alcançou alto grau de sofisticação, e o marqueteiro do PT João Santana é considerado “o cara que ganha eleições”, mas quando o marketing de dissocia da realidade e impede que o debate seja mais profundo e espontâneo, se torna um problema para a democracia.

Nas redes sociais, é interessante notar que o marketing foi muito mais “solto” e espontâneo do que nos meios tradicionais, o que é uma boa notícia. Os perfis dos candidatos, partidos e militância não mediram palavras e por vezes até falaram mais do que deveriam. A página de Dilma no Facebook e seu perfil no Twitter postaram freneticamente, compartilhando, além de conteúdo próprio, todo tipo de conteúdo de outras fontes. Os canais da presidenta reeleita também polemizaram com assuntos como a capa da edição desta semana da revista Veja, que trazia uma suposta revelação bombástica de que Dilma e o ex-presidente Lula sabiam do esquema de corrupção na Petrobras. Na forma, os posts alternaram entre fotos, vídeos e infográficos, e a estética do meme e o conteúdo colaborativo bem humorado produzido pelos militantes e eleitores que demonstram seu apoio foram bem explorados. A contratação de Jefferson Monteiro, criador do popular e divertido perfil Dilma Bolada como consultor pela campanha petista talvez explique essa ênfase no humor. A histórica militância petista, tanto nas redes sociais quanto nas ruas, que andava meio tímida, explodiu com a ameaça do PT perder o governo federal após 12 anos e foi decisiva na arrancada final de Dilma, com destaque para a rede de blogs identificados com Dilma e o PT.

Aécio Neves perdeu a eleição por pouco, mas no Facebook seu perfil é o campeão, com cerca de 3,6 milhões de fãs, contra cerca de 2 milhões de Dilma. Sua atuação nesta rede foi mais discreta do que a da presidenta, no entanto. Onde a equipe de Aécio inovou foi na criação de conteúdo em vídeo para ser compartilhado via WhatsApp. Nesses vídeos com cara de amador, o candidato do PSDB conseguiu uma proximidade com o eleitor, falando diretamente a ele, e os vídeos se espalharam rapidamente pelos grupos do aplicativo de mensagens para celular. O WhatsApp foi a grande revelação eleitoral, aliás, e muitos acham que ele teve efeito decisivo na boca de urna. Infelizmente o WhatsApp também é muito eficaz para compartilhar informações falsas de desinformação, e ao contrário das outras mídias, é muito difícil combater e eliminar esse tipo de conteúdo do aplicativo.

Da campanha de Aécio, que no geral teve uma boa estratégia nas mídias sociais, o grande “fail” foi uma ação que não partiu da própria campanha, mas de um apoiador, o publicitário Jairo Soares, sócio da agência Hollywood.tv, que negociou o apoio da atriz Lindsay Lohan e da supermodelo Naomi Campbell ao candidato tucano. O problema é a notoriedade dos problemas com drogas das duas celebridades e a relação óbvia que os eleitores fizeram com o boato de que Aécio seja usuário de cocaína. A ação não contava com a falta de sutileza do site TMZ, que estampou uma manchete “Meu candidato presidencial tem um helicóptero cheio de cocaína”, em referência ao helicóptero de propriedade da empresa do deputado federal Zezé Perrella, um dos principais apoiadores de Aécio, que foi apreendido com 450 kg de pasta base de cocaína pela Polícia Federal.  Além da notícia, o TMZ também fez um vídeo hilário sobre a história.

Somos testemunhas de que a influência das redes sociais na eleições veio para ficar, e embora pareça que as pessoas não estejam dispostas a mudar suas preferências políticas por discussões na internet, a volatilidade do eleitorado, segundo as principais pesquisas, mostra que muitos cidadãos mudaram suas escolhas de voto, e a internet pode sim ter influenciado  bastante nisso. As redes sociais também serviram para “arejar” o discurso do marketing político e despertar o engajamento dos eleitores, produzindo seu próprio conteúdo de apoio ou ataque aos candidatos. Está aí uma mostra de como é possível trazer o eleitor para um papel mais ativo na campanha pelo seu candidato de preferência. Também ficou claro que a estratégia de campanha nas mídias sociais deve estar bem articulada às linhas gerais da campanha na TV e nas ruas, que ainda são fundamentais e são um território em permanente disputa. Aí o Facebook é um grande aliado com a função de eventos, que virou indispensável para trazer um grande público a atos públicos de campanha como comícios e carreatas.

O assunto eleições monopolizou as redes e após essa campanha tão acirrada estamos todos saturados e com clima de ressaca, mas achamos que a discussão política, apesar de tudo, foi saudável e representou um avanço. Um salve à democracia!